Apontei para mim mesma desacreditando. Eu??? O guarda, armado de metralhadora ou coisa enorme parecida, confirmou com a cabeça e indicou o meio fio onde outros carros eram revistados por fora. Só pode ser grana, falei mais uma vez comigo mesma, observando que os carros parados pareciam novos e de boas marcas e que, enquanto os policiais sadicavam os motoristas em seus carros blindados, dezenas de motoqueiros desfilavam pela avenida aliviados dentro de seus capacetes.
-CNH e documento do carro, por favor.
-CNH…
– Carta de habilitação. Tire do plástico , por favor.
-Seu IPVA não foi pago.
-Não pode ser, moço. Checa lá. Eu me lembro claramente ( mentira, estava em dúvida agora).
– Já checamos.
– Tão rapido? Por favor, olha direitinho de novo ( mais tarde, me contaram que um acessório novo indica de longe, pela placa, qualquer irregularidade).
– Está vencido.
– Moço, se o documento estiver em casa, eu vou voltar aqui, juro.
-Vamos ter que reter o veículo.
-Como assim? Vou deixar o carro aqui?
– Vai ser guinchado.
-Ô meu Deus, ele nunca subiu num guincho antes. Maltrata muito? Mandei lavar essa semana. Onde eu pego de volta?
-Diadema.
-O senhor tá brincando.
-Chave do carro.
-O que?
-Chave do carro, por favor. Aguarde a notificação, vou preencher na viatura.
Saiu sem pedir dinheiro. Olhei a carteirinha plastica com o nome do despachante e liguei. Como não sabia exatamente o que pedir, desliguei.
Meia hora depois, um sol de rachar, vou procurar o meu entre vários guardas. Meti a cabeça na viatura.
– Oi, vai demorar?
-Permaneça no veículo até eu terminar, por favor.
-Só queria dar uma apressadinha porque tenho queijo fresco no carro.
– Volte para o veículo.
Continuou escrevendo à mão. Tive pena da sua dificuldade com a papelada. País atrasado, pensei, mas não comentei. Pela janela, disparou a ordem.
-Pode retirar tudo do carro antes de sair.
Juntei as sacolas de supermercado com o que havia comprado para o jantar que ia oferecer mais tarde. Vinho numa caixa de papelão que o empacotador descolou no depósito. Deixei o cabo rasgado do aspirador e uma sacola com livros de psicologia da minha filha. Achei que ninguém ia se interessar. Peguei um taxi com um motorista com tanta raiva do mundo quanto eu.
– Filhos da puta! Pena que o Datena não vai sair candidato! Acabava com essa brincadeira!
– É.