Para a liberação do veículo, o site do Detran pede que o infrator defina a que batalhão pertence a Policia Militar que o abordou na blitz. Nem sabia que era a PM. Nunca tinha pensado no assunto dos uniformes, exceto quando o prefeito repaginou os marronzinhos, agora amarelinhos, e a Cidade ficou Linda.
Às sete em ponto do dia seguinte, desço a escadaria da estação Armênia do metrô. A primeira senha. No guichê, soube que o valor, IPVA, multas e outras punições, teria que ser pago em dinheiro vivo ou no débito e eu não tinha nem uma coisa outra porque o valor ultrapassava o limite do cartão. Atravesso apressada o pontilhão atrás de um banco esquecendo que só abre às dez. Diminuo o passo e dou com simpáticas lojinhas de bairro e simpáticos vendedores. Comprei amêndoa e pistachio, dentaduras de açúcar, jujuba, miçangas coloridas, chita. Tudo por quilo. Passei por um barbeiro/bar, uma afiadora de alicate de unha e dezenas de portas com acessórios falsos para celular. Na padaria, onde me permitiram ficar por quase duas horas numa mesa com um copo de café, assistimos a Globo na Copa, pobres repórteres que, como eu, tentavam achar graça na desgraça que é cavar matéria nova todo dia. A fila na porta do banco já estava formada por três ou quatro idosos conversando. Eu com cem quilos de compras na bolsa. Outra senha. O rapaz do caixa tira o dinheiro, conta as notas e separa em montinhos com elástico me instruindo a distribui-los pelos bolsos. Alertou sobre os perigos do bairro. Pensei que ali quem não era assaltante era extremamente gentil. Abraçada nos meus bolsos, volto ao guichê do Detran, agora com centenas de pessoas com números de senha abaixo da minha. Pago uma pequena fortuna e recebo papéis que devo apresentar noutro guichê. Senha. Pediam cópias de documentos que eu deveria levar ao Detran de Diadema, mas que seriam carimbados ali. Dirijo-me ao xerox/lanchonete do outro lado da rua e espero a minha vez na fila entre pessoas que almoçavam ao longo do mesmo balcão. Na volta, nova senha, passei por um guichê exclusivo para despachantes, quem dera, e esperei ao lado de um casal muito simples, ela, mirradinha, ameaçando a sogra de morte “a véia desgraçada”, dois namorados segurando os capacetes da moto e se pegando de dar inveja, gente sentada, gente de pé, crianças correndo, a clientela diversificada. Chamaram o 154, agora eu já chegava espiando a senha do outro, eu com a 177. Entrego os documentos e a moça garante, eu fiz jurar, que ligava para avisar que eu podia ir até Diadema recuperar o carro. Não ligou. No dia seguinte, meti-me num Uber e, por minha conta e risco, mãe cê tá louca, parti para aquele município achando que era uma viagem, nem foi. Como desgraça burocrática pouca é bobagem, era dia de jogo do Brasil e o país parava de funcionar às duas da tarde. As ruas com ares de fim do mundo. O Detran de Diadema lotado. Entro, puxo a senha mecanicamente, fila, apresento a autorização do Detran de São Paulo. Sem a emoção que corresponderia ao momento, o rapaz anunciou que o veículo estava à minha espera no pátio a quinze minutos dali. Outro Uber. Esse, sem aplicativo e sem noção do destino: a senhora pode me dirigir, por favor? Claro, vamos trocar de lugar , tive vontade de responder. Lembrando um presídio, o gigantesco portão de ferro abria o suficiente para passar uma pessoa de cada vez. Uma multidão aguardava rendida o chamado para adentrar um puxado de laje sem ar-condicionado, receber uma senha e ser atendido, se é que se pode chamar assim, em três guichês fechados com vidro escuro, à prova de bala, diziam os que estavam há horas presos ali. No último guichê a placa com os preços, dependendo da categoria do carro, de quantos dias “usou” o estacionamento, taxa de guincho e tais. Outra pequena fortuna. De um pequeno alto-falante abafado, soando fanho, saíam os nomes e números das senhas dos infratores. O tempo correndo, o jogo se aproximando. A má vontade dos funcionários ajudando a apertar o relógio. Ninguém entedia o que o microfone dizia. Ansiosa, enlouquecendo de calor, postei-me com a ouvido colado nele e passei a fazer a tradução aos gritos. Vinha Walter Wilson da Silva, eu repetia Walter Wilson da Silva! Os gritos pelo Walter Wilson se multiplicavam pela multidão até o Walter Wilson chegar ao guichê. Um ou outro mais lento era carregado para a frente. Uma senhora mostrou a mancha roxa no braço e contou que ao receber a chamada para o resgate do carro, arrancou a agulha da hemodiálise e correu. Outra passou o lencinho de papel para um rapaz suando: tá limpo, pode usar, só chorei nele. A menina da vez tentava escrever o nome com a mão esquerda, a direita engessada. Num misto de generosidade e desespero, me ofereci para preencher o formulário por ela e já estava no sobrenome do meio quando ouvi o grunhido do outro lado do vidro dizendo que só ela podia fazer isso. O jogo chegando. A turma se tornando inquieta. Um homem tremia tanto que não conseguia contar o dinheiro. Depois de xingar aos palavrões o Detran, o governo, o time do Brasil, as mães de uns tantos filhos seus, anunciou que ia fumar um baseado e voltava depois. Era de novo o cartão de débito ou dinheiro vivo. O pessoal, sempre na segunda opção, empurrava as pilhas de notas por uma pontinhola giratória de onde mal ouvia-se a ordem para finalmente dirigir-se ao pátio. Eu ajudando a despachar aquele e apressar o próximo. Vamos gente, prestenção, quer perder o jogo? Quando me chamaram, enlouqueci. Era como se fosse a chance de subir no ultimo helicóptero saindo de Saigon. Suada e sorridente, com ar de superioridade, abri caminho entre a turma de senha na mão e subi o ladeirão até o pátio onde os carros tomavam sol. Pediram que eu checasse o veículo, dentro e fora, entregaram a chave, digitei São Paulo no Waze, liguei o radio para ouvir o segundo tempo do jogo e segui para casa certa de que tinha me dado bem.