O beija-flor veio na minha direção, fechado em mim, olho no olho, querendo me beijar. Batia intensamente as asinhas naquela velocidade acelerada que os mantêm flutuando sem sair do lugar e sem perder altura. O bico longo furando o ar. Achei que não era comigo, procurei a flor, mas era eu mesmo. Veio cheio de onda, o corpinho de poucos gramas refletindo em azuis e verdes metálicos a luz do sol, ainda carregando o mel da fêmea anterior e querendo mais. Polinizando. Senti um frio na barriga. A certeza na escolha dele encheu-me de compromisso e responsabilidade. Respondi instintiva, o corpo inteiro agora fincado no chão, todo o meu néctar, perfumada flor, feminina. Esperei o encontro sem saber como se daria e já querendo. E então, o inesperado, sempre tão distante da natureza harmoniosa das coisas. Havia um vidro entre nós. Limpíssimo, transparente, atravessando o destino. Eu também não percebi, ocupada com a minha vaidade, só via a ele e ele a mim, perdemos o radar. Bateu o bico, a cabeça, as asas, estatelou-se contra o nada. Ouvi o som duro do impacto e assisti sua queda desequilibrada na grama. Corri e peguei o corpinho quente com cuidado, meu coração disparado de dor, coloquei na mesa do jardim. Que má sorte a minha e de quem quer que me deseje! Morto o beija-flor! Morta a nossa vontade! Morto o momento! Fui, aos gritos, pedir socorro. Quando voltamos, agora com as diferenças contabilizadas, o beija-flor, sapo que não beijei, seguia inerte sobre o mármore. Dobramos- nos sobre ele, auscultávamos o que já não batia. Durou um, dois minutos aquela morte e bateram-lhe novamente asas, coração, o rabo. Milagroso ou espontâneo, veio a ordem e ele ressuscitou do pequeniníssimo desmaio. Saiu voando, desorientado e ressentido, eu sei, do que era tão certo e não aconteceu.