Meu pai está trabalhando numa série de presépios de madeira. Começou pelo tradicional, Nossa Senhora, São José, Jesus na manjedoura, os Reis Magos perfilados e os bichos, vacas, ovelhas, um burro. Há outros montados nas cabaças que ele colhe do pé que plantou ao lado da garagem. As figuras ficam menores e mais delicadas lá dentro. E seguiu experimentando como todo artista faz, se quiser honrar o título. Criou umas cenas natalinas bem minimalistas, com figuras sem rosto e animais estilizados que a gente adivinha pelas orelhas, o focinho ou o rabo. Me chamou a atenção uma delas que trazia apenas o menino Jesus entre duas Nossas Senhoras, uma de manto cor de rosa e a outra de azul. Achei admirável que meu pai tivesse ido tão longe na sua liberdade criativa a ponto de colocar duas mulheres ali. Como sempre houve aquela desconfiança disfarçada quanto à concepção do filho de Deus pela gente de pouca fé, entendi o recado. Meu pai propunha uma versão moderna da origem de Jesus. Eu disse a ele que as netas ficariam orgulhosíssimas quando vissem. Sorriu e voltou a trabalhar. No dia seguinte, quando entrei no estúdio, estava com o presépio feminista na mão: Estou aqui quebrando a cabeça para ver como coloco a barba numa delas.