Da janela do carro, a imagem bucólica parece irretocável. Não se engane. Nesse exato momento, enquanto nos afastamos pela estrada tortuosa, o marido possivelmente arrasta o corpo dela pela neve. Os carneiros curiosos cheirando o rastro vermelho que sobe a montanha. Aberta pelo machado encostado junto à lareira, a cabeça branca agora pende para o lado sem resistência. Ele a puxa pelas botas ainda sujas da ida ao fiorde mais cedo, atrás de salmão fresco. Não havia. Magro e pouco feminino, embrulhado em roupas de frio, o corpo saltita no terreno pedregoso que, de longe, nos parecia um imenso e macio tapete verde. Nuvens pesadas cercam o pico como em quase todas as manhãs no ilusório verão norueguês. 
O golpe foi desferido quando ela não respondeu por que, pelo terceiro dia seguido, não preparou o peixe com presunto cru no café da manhã. Em 49 anos de convivência isso jamais tinha acontecido. Ele também não disse nada. Deixou a caneca de café sobre a mesa e encerrou todos os assuntos com uma machadada só.