Estou com a equipe de TV no Little Italy, bairro italiano de Nova York onde a mafia operava, fazendo uma matéria sobre segurança na cidade. Numa das ruelas, uma procissão se arrasta lentamente. Crianças vestidas de anjo, mulheres levando velas acesas, Nossa Senhora bem acomodada numa espécie de liteira carregada por homens de terno. Uma banda acompanha o cortejo entoando marchas religiosas, o sol forte do verão novaiorquino refletido no metal dos instrumentos. Não é tudo. Misturado àquela multidão, vestindo um elegante terno cinza, está Al Pacino. Aí fica claro: flagramos a filmagem de O Poderoso Chefão!
O cinegrafista enlouquece com a oportunidade, liga a camera e começa a gravar as cenas do filme e o trabalho da gigantesca equipe que, aos poucos, vamos identificando pelos fones de ouvido, radios de comunicação, pranchetas nas mãos. Estamos afastados por um cordão de isolamento, mas é possível perceber que o diretor Francis Ford Coppola nos observa de longe. Arrisco e grito, agitando os braços: “Mr. Coppola, Brazilian TV!”  E, para surpresa geral, ele caminha na nossa direção. Vem calmamente, segurando um sorvete de casquinha e diz, educado: “Yes?” Eu congelo. O cinegrafista pede nervoso:”Pergunta, Marina! É nessa hora que se conhece o bom repórter!” Eu muda. Coppola lambe o sorvete derretendo. “Vai,Marina! PQP! Fala com ele!” Não consigo pensar em nada e, tocando seu braço, digo qualquer coisa como:”Sou sua fã. É uma honra estar aqui. Nem acredito!” Ele sorri, agradece e volta sem pressa para o set comendo a casquinha.
No escritório da emissora, assistimos o material dezenas de vezes tentando editar alguma coisa que fizesse sentido sem a intervenção vital da repórter. A matéria nunca foi ao ar. O cinegrafista nunca me perdoou.