A senhorinha ao meu lado, perfume, batom, brincos, anéis, colar e pulseiras, saiu direto do Sírio Libanês para o aeroporto rumo a Lisboa, onde mora o filho que despachou a ordem de resgate. “Ele não queria que eu ficasse nem mais um minuto no hospital,” anunciou orgulhosa. O comissário de bordo ergueu as sobrancelhas. “O médico acatou o pedido e me deu alta.” A neta confirmando. “Estou congelando nesse ar-condicionado.” Segurou minha mão com a mãozinha fria para comprovar o que dizia. O comissário correu e voltou com uma invejável bolsinha de água quente forrada de feltro. Ela ajeitou-se na poltrona, colocou os óculos e passou a noite inteira assistindo o vídeo da companhia aérea, aquele que mostra o avião, o que quer que estejamos sobrevoando naquele momento, mapas, a altitude, a velocidade. “Meus filhos insistem para que eu escolha um filme, há tantos bons, eles dizem, mas eu gosto de acompanhar o trajeto que é para não me distrair da viagem.”