O anfiteatro lotado de senhores de cabeça branca para um evento cultural. Num procedimento que agora me parece corriqueiro, a dificuldade para encontrarem os lugares, acomodarem-se neles, recuperarem a respiração, cumprimentarem os vizinhos e então, ecoando no salão, o pipocar dos celulares, o toque inconfundível do modelo mais simples, básico, o pequeno, com teclas e sem aplicativos. 
Durante todo o tempo, a apresentação é entrecortada pelo som, altíssimo por razões óbvias, de algum aparelho. O proprietário não está constrangido, ao contrário, celular é assunto sério, pode ser um filho, um neto, um parente com alguma emergencia. Ele leva algum tempo para se dar conta de que é o seu que está tocando, localizá-lo num bolso, numa bolsa, e lentamente iniciar o procedimento de atendê-lo. Coloca os óculos, checa a ligação e então, avisa que está no teatro e aperta com alguma força a tecla de desligar. A senhora ao meu lado, pérolas, cabelo e unhas feitas, bengala em punho e, aqui perdeu-se a elegancia, as pernas um tanto afastadas demais pelo tamanho das coxas, recebe diversas ligações e comenta cada uma delas com as duas amigas que a acompanham. Mostra o celular, a luz acesa no salão escuro, as outras devolvem os comentários. Tenho o instinto de protege-la quando observo cabeças mais jovens voltando-se com ar de repreensão. Ela não se abala. Ao contrário, ser procurada é ser necessária, querida, importante. A partir da segunda chamada, já não mergulha a mão tremula na bolsa, mas guarda o telefone dentro do vestido, no sutiã. As amigas concordam. Na saída, ficam de pé, ela fragil apoiada na bengala, conversando longamente sobre o espetáculo, a fila esperando que, pelo amor de Deus, se encaminhem para a porta. Não tenho pressa, quero o tempo delas, e o meu celular tocando perto do coração.