Era uma vez um coelho que vivia na nossa casa em Ilhabela. Não se trata do Fred, coelho carioca, civilizado, que tomava banho de chuveiro, roía a Piauí e só fazia cocô na gaiola. Desse já falamos muito. Antes dele, houve o coelho da Ilhabela que nem nome tinha porque não se viu necessidade. Era um tipo rústico, desconfiado, cem por cento caiçara, que comunicava-se basicamente com duas atitudes, atacar ou fugir. Atacava as plantas, as flores, as raízes das árvores, a mangueira da piscina, os pneus das bicicletas. Quando interpelado, fugia por um tempo, escondido onde jamais descobrimos. O coelho da Ilhabela foi escolhido com muito critério num coelhal, entre dezenas de outros saltando e correndo nos fundos da casa de um pescador. Era disparado o mais fofo da turma, garantiu minha filha pequena. Quando expressou o desejo de ter um coelho, o Zé, caseiro, respondeu com naturalidade que era só passar e pegar lá no Dá Seta. Ele cria? Não, eles se criam eles mesmos. O Dá Seta só oferece lugar.
Veio o coelho no colo com carinhos e mimos, mas infelizmente mostrou-se avesso às humanidades. Depois de algumas tentativas de fuga frustradas, longos túneis escavados na direção do vizinho ou da rua, o Zé resolveu construir um cercado para o coelho. Gostava muito de marcenaria, o Zé. Não fez mais nada nos próximos muitos dias. Nem cuidou da casa, nem do jardim, ficou só por conta do projeto. Ia de moto até a vila, comprava madeira, serrava, martelava, tornava a ir até a cidade, mais madeira, até que terminou. Era uma estrutura exagerada, pesada, um forte blindado. Tinha que ser, ele explicou, para que o coelho não o roesse nem esburacasse o solo. A inauguração do coelheiro foi solene e o Zé estava sério. Mandou minha filha trazer o bicho e colocar lá dentro. Solta, deu a ordem. O coelho ficou alguns segundos parado, olhos arregalados, coração batendo rápido, a gente na torcida, querendo ver ele brincar. E então, ainda sem se mover, ele tomou impulso e, como se tivesse molas nas patas, levantou vôo, saltou de uma vez sobre a cerca, aterrisou do outro lado e sumiu na mata fechada para nunca mais voltar.
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