À mostra, indefesa, está a nuca e o cabelo úmido terminando ali, no começo de tudo. De costas, nú, inteiro, pesado, entregue ao sagrado, desacordado, ele. Eu o vejo morto e quando respira, a pele elevando-se lentamente, estou feliz como Neruda no poema, feliz de que não seja verdade. Os olhos esquecidos do que viram, mais fechados do que a boca que guarda semi aberta a memória de gostos em cantos e flancos sombrios. O fio de luz dos dentes. Branco sobre o fundo branco, o contorno descuidado, meu coração periciando o corpo caído, despregado do céu, jogado no lençol. Eu o acolho distante, prenha de compaixão, mãe do menino que dorme. As mãos soltas, inúteis, abrindo mão do momento. Nada acontece agora que a luta está esgotada, quando a tarefa de manter-se vivo está cumprida. O trabalho ininterrupto de um homem, a existência dedicada ao gozo. Vencido. O suor seco resfriando as costas. Descansa e se esquece, alimentado de mim. Suas pernas, os pés tortos, descobertos, abandonados, afinal. Ele dorme e me comove.