Papai intermediou a negociação do fusca entre o tio Marcos e o primo Marcelo. Um modelo 79, branco, único dono, quase todo original e em excelentes condições. Chapa de Guaxupé. Foram os entusiásticos elogios numa festa da família em São Paulo que despertaram o interesse do primo, cujo primeiro carro foi justamente um fusquinha, só que azul claro, herdado do avô. Quase todo mundo que teve um fusca um dia diz sentir saudade. Não no sentido de querer tê-lo novamente ou até, mas sobretudo uma melancolia, a constatação de que o carrinho, chamado assim para quem olha para trás, foi cúmplice e parceiro daquele trecho da vida. Dizem que o fusca nunca deixou ninguém na mão, acho que é também dessa lealdade que falam. Movido por todos esses sentimentos e alguma vaidade, já que dirigir um fusca conservadíssimo hoje em dia é atenção certa, o primo tomou um ônibus e mandou-se para Guaxupé, onde encontrou o carro encerado, reluzente, um agrado que meu pai fazia a ambas as partes. O orgulho de ter apresentado quem não queria vender a quem nunca tinha pensado em comprar e realizado o negócio com sucesso. É que o tio tinha uma dificuldade enorme de passar o carro para a frente, nem usava, nem vendia, gostava de saber que ele estava lá, há 39 anos devidamente coberto por uma capa de lona na garagem da fazenda. Só tomou coragem decisiva e à contra gosto quando lhe roubaram um trator e ele percebeu que estavam de olho nas suas posses. Comentou mineiramente na mesa do botequim, voz e olhos baixos, como quem não faz questão que é para não tirarem vantagem dele. Os outros, igualmente mineiros, não demonstraram o interesse que talvez tivessem. Quando o tempo andou é que a coisa se deu na oferta do meu pai. O primo desembarcou e já estava tudo acertado. Passou o dia dando voltas, testando os pneus nos paralelepípedos da cidade, reconhecendo o motor, abrindo e fechando a porta, metendo a cabeça dentro, passando a mão na lataria. Convencido, puxou a antena, ligou o radio e seguiu de volta para para São Paulo cumprindo os 80 quilômetros por hora sinalizados na estrada com a prudência que ele agora tinha ao volante. Foram ultrapassados pelos outros carros e mesmo por um grupo de ciclistas, nenhum outro fusca para comparar. Mergulharam na Marginal, sentiram a pressão da metrópole,
e estacionaram na garagem da casa, em Pinheiros, de onde o carro ainda não saiu e isso já faz dois meses.