Ainda que tivesse se dado conta, a senhora, negra e obesa, não poderia abaixar-se ali para amarrar o cadarço. O vagão do metrô estava lotado e ela carregava uma criança no colo. Fiquei olhando os longos fios soltos escapando do tenis, esparramados no chão. Tinha tomado o trem muito antes, na Union Square, e garanti um lugar sentada, motivo de comemoração pessoal a cada solavanco sádico do condutor. Havia outros tantos pés mal acomodados, fincados no chão aos pares, bípedes em trânsito coletivo. Ela segurava-se com firmeza na argola de metal pendurada no teto, bolsa atravessada no braço, casaco até a altura dos joelhos. Os cadarços livres, esquecidos, prestes a serem atropelados pela falta de espaço e pela pressa. Acenei timidamente, mais para enganar a culpa do que para resolver, apontando para o meu assento sem sucesso. Ela ensaiou um rearranjo no corpo como quem procura aliviar o peso e ganhar equilíbrio. Estava abrindo a guarda para desembarcar, desamarrada e indefesa.

Fiz então o que a minha história demandou. Medi a distancia com o braço e, avaliando que não alcançaria, escorreguei o corpo até a beiradinha do banco e abaixei-me de forma a poder tocar seus calçados. Espremidas entre tornozelos desconhecidos, pontas de guarda-chuva e sacolas, minhas mãos agarraram os fios apartados, primeiro um e depois o outro e, com a urgencia de quem não pode errar, deram um laço firme e certeiro. O movimento, sem nenhuma intenção de alarde, abriu um espaço circular de rinha de galo. Pernas afastadas e cabeças para baixo, olhares curiosos na minha direção. Os colegas de banco retesaram-se em reação ao gesto inesperado. Senti o rosto quente e virei-o para fora tentando amenizar a atitude talvez inadequada para o padrão novaiorquino de convivência social. A mulher, agora gigante, passou a caminho da porta e, antes de sair, absolveu-me com a voz grave: Thank you, darling. You certainly don’t belong here.