A onda chegou antes e maior do que eu calculava. Talvez tenha sido minha porção mineira, acostumada às montanhas sólidas e imutáveis, que impediu uma reação adequada. Quando me dei conta, já não havia tempo para mergulhar nem fugir e para falar a verdade, não sei o que fiz, se fiz. Num movimento rápido, a água puxou o tapete sob os meus pés e me jogou para trás com violência. O primeiro soco no rosto. Engoli a água salgada, o mar inteiro desceu pela minha garganta e entrou também, no sentido contrario, pelo nariz. O ouvido zumbia como efeito de lança perfume. As imagens rodavam em camera lenta. O segundo soco nas costas. Soltei o corpo sem resistir, ao contrário, me entregando à imensidão do mar. Não teria sido uma morte ruim de forma alguma. Mais do que medo ou sofrimento, senti a verdade da natureza, o meu tamanho e o tamanho da onda. Há algum prazer em aceitar a derrota. Um descanso. Entrei num redemoinho iluminado pelo sol, vi a areia circulando, o fundo do mar subindo, meu corpo girando solto feito roupa na maquina de lavar. E então, fui rolando até o raso em cambalhotas impulsionadas pelas lambadas da água. Um chute no bumbum. Outro nos joelhos. Outro na cabeça. E quando achei que nunca mais me levantaria, operou-se o milagre. Veio a onda num volume perfeito e um salto de ginasta devolveu-me de pé ao chão. Inacreditável, pensei! Não fui a nocaute! Saí devagar num andar trôpego de bêbado infeliz. O ouvido doía muito e brotava água dali e do nariz. O cabelo duro de areia e desgrenhado de quem apanhou. Mas o biquini firme no lugar, mesmo a parte de cima, uma pequena vitória devolvendo dignidade à alma machucada.