De repente, o silencio reflexivo do terapeuta foi atravessado por um cacarejo de galinha solta no pátio. Estico o olho para fora querendo ouvir novamente para me certificar. Imagino a galinha ciscando de um lado para o outro na sala de espera, rio sozinha e me ajeito pela primeira vez naquela poltrona. A casa que abriga a clínica tem uma frente pequena, mas o terreno inclinado corre longo para os fundos e termina pendurado com metade do corpo para fora. As salas de atendimento estão distribuídas por três andares, algumas com terraço e portas duplas de madeira de onde se veem outras casas esparramadas lá embaixo com quintais grandes e mal cuidados. Em pouco, outro longo cacarejo melancólico. O terapeuta segue como se nada, sem perder o fio da meada. Cismo. Serão as galinhas da fazenda em Guaxupé resgatadas pela memória afetiva na sessão? Discutimos os casamentos atuais com filhos de pais e mães diferentes vivendo juntos e emoldurados numa fotografia clássica de família. Lembro a historia de amigos em segundo casamento que contrataram uma babá para cuidar que seus filhos adolescentes, meninos e meninas de idade aproximada, não se envolvessem de forma não fraternal entre eles. O final da frase foi encoberto por latidos agudos de um cachorro. Olho rápido para o terapeuta checando a situação. Sem se alterar, pergunta sobre os pais das minhas filhas. Volto. Seguro as palavras com cuidado tentando ser objetiva para garantir a veracidade dos fatos já sabendo que, no meu caso, a mentira vem dessa forma também. Os ganidos recomeçam com força e dor. Ou o cachorro foi atropelado ou um leão lhe arrancou a perna. Ninguém vai fazer nada, meu Deus? Viro a cabeça inteira e dou com um céu azul impassível, na volta, os olhos dele, azuis também, encontram os meus e me cobram. O que se passa lá fora deve ficar lá fora. Tento me manter inteira na sala e continuar o raciocínio sobre as meninas, com mais avós do que uma arvore genealógica pode carregar e a quantidade de compromissos que uma família multiplicada por três casamentos acarreta. Ele faz que vai comentar, mas com o dedo nos lábios, pede silencio e anuncia: daqui a pouco, a criança vai chorar. E então, o choro mole de um bebê se instala. Daqueles que a gente não sabe se sente pena ou quer matar. Ficamos ouvindo por alguns minutos o som repetitivo, com engasgos para tomar ar e tudo. Ele com a cabeça baixa, como se concentrado, eu disfarçando o pânico. Preciso reagir da melhor forma possível, penso, deve ser um teste e eu tenho que passar senão nunca mais saio daqui. Quando o bebê dá uma trégua e o analista ensaia retomar a conversa, arrumo coragem e pergunto o que é tudo aquilo, a galinha, o cachorro, agora o bebê, que ele já sabia que vinha. Conta que é o papagaio de um vizinho. Tem outras personas também, faz a gargalhada de um Exu, a mulher chamando para o almoço, os lixeiros gritando. Não podemos controlar tudo, sorri.
Penso, otimista, que a síndrome de papagaio, que até agora chamei de complexo de Zelig, é uma definição mais simples e natural para a minha necessidade de entender profundamente o outro, tornando-me o outro. Acho que não vou tratar.