Eu vi o pé do morto. O pé não estava morto como o resto. Escapava vivo do plástico preto estendido sobre o homem. Aquecido pelo sol, solto, em movimento. A meia branca, grossa, apertando o calcanhar, tive ímpeto de afrouxar, o tênis colorido, quase novo, barato. O pé não o deixava morrer por inteiro debaixo do plástico preto. Vibrava na luz cheio de informação. Dizia: hoje cedo, eu me levantei, escolhi e vesti essa meia branca apertando o calcanhar. Escolhi e vesti esse tênis quase novo, colorido, barato. A minha história precisa começar aqui, no meu pé que não aceita a morte anônima debaixo do plástico preto. Foi o que eu ouvi e, então, resolvi contar.