O cara mais cobiçado da redação. Lindo sem ser. Educado. Elegante. Um príncipe. Dizia-se que dormia de pijama mesmo em cobertura de guerra. Escrevia bem. Falava baixo. Falso tímido. Galanteador assumido. Um precursor do coxinha. Naquele dia, veio algumas vezes até a minha mesa, disfarçou, fez pirueta, voltou para o aquário. Era chefe. A mulherada só filmando. Meu coração inexperiente batendo fora do ritmo. Quando sentiu que a frente estava livre, chegou pertinho e perguntou se queria acompanhá-lo a um show. Não escutei mais nada. Na quinta-feira, quando a campainha da casa dos meus pais tocou, me despedi deles como quem não garante se volta. Era um quarteto de cordas no bar de um hotel bacana. Caprichei no ar inteligente que o momento pedia acrescentando uma pitada da ingenuidade adquirida. Intelectual loira. Depois da apresentação, me convidou para dançar. Senti seu perfume discreto quando executamos uma coreografia envergonhada do sem querer querendo, um roçar de corpos e os beijos que mulher nenhuma ousaria negar. E então, ele me pega pela mão e sobe a escadaria em direção ao lobby do hotel perguntando e já respondendo que deveríamos passar a noite ali. Senti o enorme lustre de cristal rodar sobre a minha cabeça, zonza com a surpresa. E deixei que a onda me carregasse, o mar tinha a sua sabedoria. No balcão, ele pede um quarto com a segurança com que um cavalheiro escolhe o presente na joalheria. Sem assombro nem brincadeira. Baixo os olhos constrangida, princesa cortejada. Ele pergunta o preço com o cartão entre os dedos e eu faço que não ouço, distraída com a sandália. E então, o príncipe levanta a voz: Quanto? Ah, não vai dar não! Isso é um roubo! Vamos embora!
Recolhe a carteira. Agora encaro, cúmplice, a recepcionista. Atravessamos novamente o piso marmorizado, dois cavalos trotando num gigantesco tabuleiro de xadrez cinza e branco. Ele um pouco à frente numa passada decidida. Eu manquitolando, arrependida de ter nascido.
No carro, ajeita a camisa bem passada e o retrovisor enquanto se queixa do valor do quarto querendo cumplicidade. Não tenho vontade de por o cinto. A caminho de casa, o sapo ainda pergunta se eu gostaria de tomar um sorvete.