Quando ele morreu e o desassossego era demais, foi para lá que eu corri. O pequeno salão de beleza do bairro. Dois andares e os espelhos dobrando tudo, nucas e franjas, tintura, tesoura, carrinho de esmaltes, shampoo, o som das vozes e do secador. Eu e minha mãe, minha avó e antes dela e minhas filhas e suas filhas, o certo, o autorizado, o intervalo comum num cotidiano batido. O tempo suspenso e nenhum questionamento além da cor, do comprimento. Redonda ou quadrada? A angústia perdendo força. Ali, como em nenhum outro lugar, estou na superfície das emoções cotidianas, a novela, o capítulo seguinte e o próximo, as celebridades em fatos e fotos passadas de mão em mão. Nas conversas corriqueiras, a moral comum, a justiça divina, a estética da classe média, o bom, o mau, o feio, o bonito. A segurança da rotina. A garantia de que a vida segue porque na quinta tem um horário marcado para mim.