Num dia, desses em que os velhos e os gatos brigam pelo sol que atravessa as vidraças da casa, segui minha filha, sem aula por uma greve ou por outra, até a cama dela e nos deitamos bem pertinho uma da outra dividindo a mancha amarela esparramada ali. Ouvi longe os trabalhadores de uma obra gritando e rindo, gestalt operária. Na cama, os hálitos de hortelã e o cheiro de shampoo a um palmo de distância. O livro não durou nem um minuto nas minhas mãos e o celular dela também escorregou rápido para a colcha. Senti o calor de fora, o do corpo dela e, sobretudo, o da paz daquele momento que desde que ela era pequena não se repetia. A soneca da tarde é proibida para o adulto saudável. Em Minas, é um hábito mal visto, sinal de preguiça, coisa de índio vagabundo. Acorda-se com as galinhas e dorme-se pouco depois que escurece, sem espaço para cochilos intermediários. Arriscando-me a ficar mal falada, fiz que não ia e fui em silêncio atrás dela. Adolescente dorme sem pena de perder tempo. Senti saudade de quando era menina e me deitava com minha mãe depois do almoço para estudar, ela lendo a matéria para mim. De costas, fingia que estava ouvindo e, ela sabendo, dormia o sono seguro das pessoas que são amadas. Não se passou meia hora e eu acordei com o sol inteiro dentro de mim.