Escolhendo o tecido para a poltrona que ele iria forrar, comentei que tinha pressa por causa de um compromisso no centro. Não entrei em detalhes sobre as aulas de espanhol com a jovem cearence que morou no Peru e que, além da língua, conheceu a fundo a gastronomia local e misturando ingredientes nordestinos com iguarias dos Andes, fazia um inacreditável Ceviche no dendê.
Optamos por uma camurça estampada lavável, devolvi o mostruário, ele saiu desviando dos móveis, sobreviventes aleijados pelo tempo, atravessou a tapeçaria apinhada e trouxe o bloco onde anotou o pedido depois de afastar o pó da página com a mão, um gesto automático e talvez desnecessário.
Sem levantar os olhos, disse que estava indo para a mesma área fazer uma entrega e que se eu quisesse, me dava uma carona. Pensei no metrô, mais cheio do que show do Justin Bieber, diz a adolescente de casa, e aceitei.
Ele despachou umas instruções com o assistente, um rapaz de ar abobado e boné do MC Kevinho, e gritou a mulher. Dos fundos, claramente a contragosto, veio a Ivoneide. Achei bom, não estava muito confortável de andar de carro sozinha com o homem que, apesar de anos de convivência, eu não conhecia bem. Sandália de plataforma e unhas vermelhas, batom, perfume, cabelo longo com progressiva, apresentou-se, “prazer, Ivoneide”, e sorriu com cumplicidade causando o efeito contrário, me senti pequena, mal arrumada, pouco feminina.
A Kombi estava estacionada irregularmente na esquina, ele, então, arrancou a multa do para-brisa, amassou e jogou na calçada. Refreei o impulso de recolher. Ela acendeu um cigarro. Os homens abriram as portas duplas e meteram lá dentro mais cadeiras do que eu imaginava que fosse possível, um lego improvisado e inacreditavelmente funcional. Ficou claro que iríamos os três no banco da frente. Ivoneide entrou e sentou-se coladinha nele, a saia justa subiu até o alto das coxas e eu entendi porque ele não a deixava sozinha na tapeçaria com o ajudante de ar sonso.
Aboletei-me perto da janela, girei a maçaneta macia, o vidro desceu revelando minha cara embaçada no espelho retrovisor.
O ajudante voltou lá de dentro com uma caixa grande e um bolo dentro, produção caseira da Ivoneide, que seria deixado numa cliente no caminho. Ajeitei como pude a bolsa no chão, o bolo no colo. Me pediu para repetir o endereço, ligou o radio e seguimos sem trocar uma palavra chacoalhando as cadeiras ao som de forró gospel até o guarda dar o sinal.
Ele encostou, abaixou o som e mandou que ela tirasse os documentos do porta-luvas. Enfiou a mão no bolso, tive medo de que fosse uma arma, era dinheiro. Com movimentos de ilusionista, estendeu os papéis com as notas embutidas. O guarda pegou o que interessava e nos liberou. Fez mais, esticou o braço e deu sinal na avenida para que pudéssemos entrar novamente. “Que susto, hein?”, me escapou. Nem uma palavra de volta, nenhum comentário. Ivoneide guardou de novo os documentos, ele aumentou o volume do radio, anunciou que me deixaria na próxima esquina e que a poltrona estaria pronta dali a três semanas.