Para envelhecer basta ficar bem quietinho e deixar o tempo passar à vontade. Não vou facilitar. Eu luto, esperneio, faço barulho, dificulto o seu movimento contínuo. Fico de plantão na porta, atenta. Registro. Meu referencial é outro, não vejo os mesmos ponteiros e, no entanto, sei, a medida é universal.
Outro dia, distraída, fui ler. Em “As inseparáveis”, Simone de Beauvoir descreve o amor intenso que viveu durante a infância e juventude com uma amiga que morreu muito cedo. De certa forma, Beauvoir atribui a morte da amiga à tentativa de ser ela mesma, de ter uma personalidade solar e única numa sociedade onde isso não era possível. Como se isso a tivesse destruído fatalmente. Não viver o que nos cabe nas nossas individualidades e certezas é uma forma de adoecer. É importante inconformar-se.
Quando coloquei o livro de lado, me dei conta de que algumas horas haviam se passado. Anotei esse tempo para descontar mais tarde. Quando me deitar, pensei, ficarei de olhos bem abertos, prestando atenção a tudo à minha volta e mais importante, deixarei bem claro que, ainda que não pareça, ainda que nada aconteça, que nenhum evento ocorra, a referencia que nos distancia e aproxima existe. O tempo estará passando e eu saberei. Aqui não!