Eu e meu marido na ótica escolhendo óculos novos numa cena digna de Jack Nicholson e Diane Keaton em “Alguém Tem que Ceder”. Experimento uma armação colorida e ele me diz que estou linda, talvez porque não estivesse enxergando direito naquele momento. Ficar bonita de óculos é a última coisa que eu desejaria a esta altura, mas decido encarar o prejuízo com bom humor. A vendedora esperta não me chama de senhora e mostra várias opções extremamente alegres dizendo que combinam com “o meu astral.” Aprovei e contei para ela que na última vez em que estive ali, ela me deu um spray para limpar as lentes dos óculos. Joguei o frasco na bolsa e mais tarde, com dor de garganta, confundi com o frasco de remédio e mandei ver sabão na garganta. A história tragicômica teve efeito contrário e reforçou a depressão.
Ajudo a escolher os óculos dele também e me pego dizendo que armação cinza fica bacana com os seus cabelos grisalhos. Ele olha para o espelho resignado. Na hora de pagar, me diz que os óculos que gostei tanto serão o presente de Dia dos Namorados. Sorrio, dou um beijinho agradecendo e penso: “Ano que vem te dou uma bengala, no outro você me dá um aparelho para surdez, aí te dou uma dentadura…” Ele deve ter sentido a minha dor porque na saída propôs: “Vamos tomar uma cervejinha naquele boteco ali antes de ir pra casa?” e beliscou o meu bumbum.