O tempo. Minha casa se foi. Minha mãe se foi. Minha filha se foi. A casa é transitória. A mãe é irreversível. A filha é previsível. No quarto emprestado, me escondo das perdas debaixo do cobertor cheirando a mofo. O tempo. Estou sozinha sufocada pelo peso dos fatos. Não sonho nem desejo. Não duvido. Esse estado das coisas é real e a dor me garante que estou vivendo. A dor é viva, sou grata por isso. O tempo. Olho para a frente e me deixo registrar o momento sólido, suspenso, sem futuro. Como uma fotografia.