O tombo do gato que lhe fraturou a perna, fosse noutro momento, não teria o mesmo impacto. Foi o tombo dele e a infecção pulmonar da diarista e a possível Covid dos amigos, de familiares e da terapeuta. O pé de hortelã que secou. O câncer da amiga que reapareceu. As tantas pessoas ficando pelo caminho. O acidente do gato nos pegou num momento de fragilidade e medo. Estávamos nos equilibrando, como ele, num beiral estreito, qualquer vento nos ameaçando tirar o chão. Estávamos todos os dias recontando os dias, comemorando um quase nada, o fato de estarmos vivas e saudáveis até aquele dia. Um calendário registrando o que não merecia registro. O susto com o gato acelerou o susto esperado a qualquer momento, a adrenalina dos sintomas identificados, o resultado do teste, a notícia de mais alguém doente. A falta de notícia é uma boa notícia, diz o ditado americano, agora mais verdadeiro do que nunca. Torcida e reza e esforço para que tudo siga exatamente igual, dia após dia. Para que nada saia do lugar. O gato caiu e se machucou e sofreu e sentimos culpa pelo que não cuidamos o suficiente, nós que só fazemos cuidar. Como se cuidar do que é vivo fosse a única tarefa de cada hora, cada dia, cada mês. O acidente do gato nos desestabilizou, chacoalhou o chão feito terremoto, tirou as coisas do lugar, deixou rastro de pó pela casa que vínhamos limpando obsessivamente para enganar a sujeira interna do momento. O tombo do gato, ele que salta, rola, se estica, sobe, voa, aterrisa, nos tirou a firmeza sobre as patas, a garantia de que a nossa natureza inteligente nos protegeria. Provocou desarmonia em cadeia. Já não estávamos seguras de nada, da receita da comida, da posição na yoga, da qualidade do sono, dos planos para depois de amanhã. Desaprendemos a nos manter de pé, a caminhar com leveza, a nos distrair com pensamentos e emoções longe daqui. Nos demos as mãos para não cair também.

 

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