O senhorzinho de sunga vermelha, aparência frágil, encurvado e muito magro, surgiu no alto da duna e veio caminhando devagar pela areia em direção ao mar. O vento jogava sobre o seu rosto a farta cabeleira branca, afastada com as pontas dos dedos em gestos delicados, como se a mão estivesse em carne viva. Era um beduíno nú vagando nomademente no deserto. Tive medo de que não fosse capaz de terminar o que havia começado. Foi. Fincou os pés na areia molhada e sentiu a temperatura da água mostrando a nuca bronzeada. Lentamente levantou os olhos e encarou o inimigo: não banque o esperto que eu te conheço não é de hoje, cara. Pensei nele jovem, a prancha, o mergulho, uma intimidade oceânica. Avançou pelas 7 ondas do raso, espuma, concha, chão. Agora, com os braços ao longo do corpo, joelhos abrindo caminho, cortando o mar desassossegado. Eu plantada na areia quente. Passou a rebentação, teste dos amadores, e sumiu da paisagem por longos segundos até que sua cabeça cinza surgisse pequena na distancia. Respirei. Ficou ali brincando remansamente, vencedor, por muito tempo. Esperei ele voltar, queria ter certeza. Saiu com ar cansado, andar trôpego. Mais tarde o reencontrei e depois outras vezes, caminhando pela calçada de sunga vermelha, descalço, arqueado, um homem.