No hospital, pela porta entreaberta de um quarto, vejo um senhor muito idoso, absurdamente magro, ligado à máquina, dormindo de boca aberta como se morto. Penso, triste, que ninguém deveria estender a vida além do limite da dignidade. Que a família talvez não tenha coragem de permitir que ele termine seus dias em casa no tempo que a natureza decidir. E que eu não gostaria de ser submetida a isso, se pudesse escolher. Hoje, a fresta da porta mostra o mesmo senhor, agora sentado ereto, de óculos, lendo o jornal. Fiquei com vergonha de tê-lo matado ontem.