Sou daquele tipo tão culpado que quando tentei terminar um namoro e o cara chorou, fiquei noiva para consertar. Do tipo que gostaria de jogar na loteria, mas não pode nem pensar em ganhar porque tem gente que precisa da grana muito mais do que eu. Do tipo que é atropelada por uma bicicleta e leva o atropelador para tomar água com açúcar porque ele se assustou com o sangue do meu joelho. Do tipo que quando pede férias para o chefe, ele diz que não dá: “E quem vai sofrer por nós na sua ausência?”
Que veio da conservadora origem mineira, católica, eu sei, mas para onde vai essa culpa? Para o corpo, diria minha analista, na forma de um tumor ou qualquer coisa assim. Para o espírito, eu pensava quando era criança: “Com tanto sofrimento, sou candidata a santa e só escapo dessa se começar a pecar, sem culpa, já”. Mastigava a hóstia na missa com gosto, mas comer o corpo de Cristo era o máximo que fazia sem me sentir imediatamente um monstro egoísta. Os outros tantos prazeres saboreei contando com a indigestão. Não há Engov para isso. Nada que se possa fazer antes ou depois para se prevenir do dissabor da extravagância espiritual. Contando que o mal-estar inevitavelmente viria, o prazer já estava comprometido desde a sua intenção. Bastava desejar e vinha a inquisição: quem é você para merecer?
Ninguém atravessa a vida sem alguma forma de padecimento. Para a dor que sentia nos ombros, o médico recomendou que usasse uma bolsa mais leve. “Mas é a cruz que carrego”, tentei explicar, ” não posso largar no meio da caminhada. Posso, no máximo, ir trocando de ombro. Me dá um remedinho que eu não paguei todos os pecados ainda”.
Muitas vezes, no auge do vigor da minha existência, cheguei a rezar pedindo a Deus forças para vencer as tentações que me levariam ao inferno ali na frente. Para me sadicar, uma amiga que não conhece culpa de nenhum gênero e que se guia apenas por seus valores éticos e morais, sugeriu que recorresse `as graças da santa de barba, cultuada desde o século XIV, na Igreja do Loreto, em Praga. Uma jovem muito bonita que sofria porque não gostava de ser cortejada pelos homens e queria se guardar pura e casta a qualquer preço. Tanto pediu e rezou que uma manhã acordou de barba e bigode, um milagre que a afastou definitivamente dos olhares lascivos dos machos da aldeia. Para castigá-la pela rebeldia e humilhação, o pai mandou crucificá-la com barba e tudo. Me tornei imediatamente devota da santa e mantive uma vela acesa durante muito tempo, mesmo desconfiando que ela fosse simpatizante da causa gay e não da minha.
Terceirizar  o problema não o resolveu, talvez por falta de fé. Na verdade, nunca torci para ser hostilizada pelos homens, ao contrário, gosto da atenção. Meu medo era de mim mesma e da minha vontade de engolir o mundo com uma energia que a igreja e minha mãe condenariam. Me estiquei no divã metade da minha vida para entender que quem precisava me absolver era o juiz rigoroso que carregava dentro de mim. Foi aí que se deu o milagre. Passou. Não a vontade, mas o medo e a culpa. Um dia, acordei consciente de que o inferno é aqui mesmo e que vou lidar com ele na medida em que pisar na bola. Passou no amarelo, vem a multa. Crucificada pelo DSV. Simples assim. Hoje posso usar, ainda que só mentalmente por questão de educação, uma expressão que sempre invejei na boca dos outros: foda-se.