Trinta anos antes, ele foi meu gosto e meu olfato. Eu sentia atravessando ele e chegando do outro lado como ele sentia. Do olhar, não me tomou nada porque víamos as coisas de forma diferente. A sua segurança, emprestada para me impressionar, me diminuía e me confundia. Mas nada importava, então. 
Lembro-me com exatidão da cor clara e do desenho masculino, assim me parecia, das suas mãos, as dobras marcadas dos dedos, o desenho quadrado das unhas aparadas com os dentes. O andar com pés de pato, abertos para fora, dentro do tênis de skatista, uma vaidade justificada pelo exercício do esporte nas ruas do Rio. Lembro-me dos joelhos, das marcas de tombos na pele clara. Dos ombros largos que ele gostava de esparramar ainda mais e com força, protegendo-se do mundo. Lembro-me do cabelo grosso e ondulado, ajeitado repetidamente para o lado com a mão, num movimento adolescente que já me comovia. Lembro-me, sobretudo, dos olhos cor de mel, que eu chamava de amarelos, e que refletiam a minha melhor figura. Os óculos eram retangulares, de armação prateada, um modelo que desmentia a sua tentativa de exibir a ginga carioca. Lembro-me das pedras brilhando das ladeiras mineiras e das calçadas marcadas com sombras e sol e das soleiras das portas altas com um degrau inclinado, onde a gente se sentava, de ferias, deixando o tempo infinito passar. Esse mesmo tempo que foi a nossa medida de infelicidade ali adiante. Que eu não consegui esticar e que rompeu-se em pequenos cacos de dor. Que uma manhã me cegou e remédio nenhum aliviava a acidez da luz. Ninguém entendeu o que se arrebentou na menina. O tempo que eu não consegui remendar na distancia entre um encontro e outro: saudade.
Trinta anos mais tarde, quando nos encontramos novamente, mãos, joelhos, olhos cor de mel, amores outros ou nem tanto, confessei minha paixão imperfeita. Fiquei doente, mas não morri como deveria.