Meu pai veste-se de Papai Noel desde que tornou-se pai. A farda já foi cerzida, colada, remendada e finalmente substituída por uma nova, menos convincente porque os chineses não acreditam ou não conseguem reproduzir o que o genuíno Papai Noel usava no Polo Norte. Diferentemente dos comerciais que a gente assiste nessa época do ano, ele não assume a personalidade do bom velhinho a cada peça que veste, não se orgulha, não tem olhos marejados, não faz reverência, mas é um legítimo representante do espírito natalino entre os católicos porque abraça a causa sem questioná-la. Mantêm-se coerente com a incoerência que marca sua existência e que nos custou, aos filhos, muita terapia para entender outros pais. Foi coroinha na infância, frequentador de missa, amigo do padre do bairro e é dono do presépio mais democrático que conheço. Ao lado da Virgem Maria e de São José, estão convidados para o nascimento do menino Jesus, o Mickey Mouse, o Topo Gigio, o Snoopy, a Mafalda e qualquer outro personagem que estiver ao alcance da mão. Os netos se queixam de que alguns brinquedos somem ao longo do ano para reaparecer na cena natalina.
Na noite de Natal a coreografia é sempre a mesma. A pedidos, arrasta-se até um quarto da casa onde se dará a ceia e submete-se rendido à completa transfiguração pelas mãos de alguma mulher da família. Impaciente, queixa-se do calor, da má qualidade da roupa e ajuda a amarrar a bota, pregar a barba, ajeitar o cinto sobre a barriga, esta sim, original. Depois, usando óculos falsos para não ser reconhecido dentro dos seus, carrega um sininho com uma das mãos, o saco de presentes na outra e adentra o ambiente onde é recebido com gritos histéricos pelas crianças e mães das crianças, ho ho ho, devolve com ar complacente. Se um parente mais entusiasmado entra com um samba, ele samba. Alguém aponta a criança que corresponde ao nome no presente, ele já não enxerga mais nada com o gorro enterrado nos olhos e o suor escorrendo pela testa. Sem direção de cena, puxa a calça caindo e dispara observações inapropriadas com a boca coberta pela barba branca fora do lugar. Antes da hora, decide-se que é hora de Papai Noel subir no trenó e seguir para outras casas, mais cinco minutos e qualquer criança de colo saberia quem ele é. Então, desaparece a contra-gosto, empurrado porta afora pelos guardiões da data.
Há muitos anos, nesse mesmo cenário, eu pequenininha, tive sorte e consegui me posicionar bem ao lado dele na distribuição de presentes. Primos, irmãos, avós e tios também disputavam um lugar. Encantada, coração disparado pela proximidade com a figura mágica de outra forma inacessível, notei um relógio debaixo da sua luva e tentei tocar aquela humanidade. E ele, com a liberdade de pai, deu um tapa de leve na minha mão. Fez mais. Irreverente, chamou minha atenção na frente de todos. Meu rosto pegou fogo e o coração congelou. Quis chorar, já não podia. Fui engolida pela confusão de gritos, papéis rasgados, fitas coloridas, pernas, braços, carnaval em dezembro. Fiz farra com as crianças, mas guardei mágoa. Na saída, ele mexeu com carinho no meu cabelo o que me confundiu ainda mais. Segui acreditando em Papai Noel até hoje. Os homens…