O varal tem pernas de bambu fincadas na grama, corpo de arame e uma franja de pregadores de madeira. Pela janela do quarto da minha avó, observo as roupas balançando e tento adivinhar a quem pertence cada peça. Depois, conto as meias em pares e sinto pelas ímpares, suas metades perdidas antes de chegar ali. São meias separadas, viúvas, meias sem serventia, sem respeito, sem razão de existir. Digo que quero ficar com elas e acham graça por eu ter pena das meias solitárias. Tenho é medo. Quando elas voltam cheirando amaciante, emboladas nas suas diferenças, ajeito com carinho na gaveta, fazendo a conta em voz baixa. Deus está vendo isso e vai me arrumar um par perfeito um dia.