Eu podia ter ido correr no parque. Fui para o shopping. Podia comprar um ovo de Páscoa. Vi o espaço de massagem. Uma tentação ao lado da outra. Fiz as contas, a diferença de preço era pouca, o prazer quase igual e as consequências a gente sabe. Adiei o chocolate. Uniformizada, a massagista era uma versão descontraída da mulher da Suzane Richthofen na cadeia, forte, quadrada, cabelo moicano. Já chegou suada, as bochechas vermelhas. Eu sou um rato medroso, não sei recuar, não sei dizer não, não sei desistir. Encarei. Na salinha apertada, ela esbarrava nos cantos da maca e se desculpava. Eu chacoalhava solidária. Pedi uma massagem relaxante. Ela pediu cinco minutos para se esticar porque tinha problemas na coluna. De bruços, meti a cara na toalha e tentei dormir. Ela queria conversar. Explicou que gostava mesmo era de reiki. Eu ponderei que era conservadora, que fazia massagem escondido da família e que só estava ali porque era isso ou o ovo de Páscoa. Passou o creme e começou a me alisar. Achei que sentia o suor dela pingando em mim, mas posso ter somatizado. Detesto massagista que faz carinho. No dia em que eu precisar pagar para receber carinho, eu compro um cachorro. Ela perguntou se eu estava bem emocionalmente. Respondi que sim já sabendo onde ela queria chegar. Disse que sentia uma energia pesada. Tive vontade de fazer uma malcriação maldosa, mas não o fiz. Ela insistiu perguntando se eu não me doíam os pontos relacionados à emoção. Cutucou aqui e ali. Àquela altura eu só sentia raiva e frustração. Ela, então, entrou num transe e disse que estava se sentindo mal por causa da energia negativa que eu carregava. Tínhamos mesmo que fazer o tal do reiki. Não respondi. Estendeu os braços sobre o meu corpo e ficou ali feito um curandeiro indígena recebendo um espírito. De vez em quando mudava de lugar. Batia na maca. Se desculpava. Fechei os olhos, pedi a Deus que aquilo terminasse logo para eu correr e encher a cara de ovo de Páscoa. Encerrou recomendando que, saindo dali, eu caminhasse descalça na grama ou abraçasse uma árvore: “Você precisa trocar energia com a natureza, colega. Eu fiz o que podia. Olha, estou toda arrepiada!”
25/03/2016