Do quarto, com a porta entreaberta para o livre trânsito dos gatos, ouço os ganidos do aspirador lutando com todas as forças nas mãos da senhora que faz a limpeza. Agora, vencidas pela necessidade, ela de sair de casa e eu de contar com seus valorosos serviços, temos esse encontro uma vez por semana. Vem de máscara no Uber de um rapaz onde ela faz limpeza também e ficamos nos comunicando de longe, aos berros, as duas insatisfeitas com a situação.
Tenho pena dele, do aspirador. É novo, daquelas compras de impulso no início da pandemia quando procurávamos prazer nas coisas mais idiotas. Tão bonito e elegante, custou caro, com garantia de pura satisfação. Mas ela não gosta, implica, diz que não tem potência, que não dá conta do recado. Por último, veio me perguntar se por engano não joguei fora uma pecinha, parte do filtro, que ela tinha lavado e deixado para secar no tanque. Sem a peça, ele não vale de nada mesmo, só tem belezura. Não joguei. Talvez um dos gatos tenha escondido de propósito. Eles têm horror ao barulho. Pois eu vou atrás que essa guerra não perco. É um aspirador bom e tem belezura, sim, mas não acho que isso tire o seu valor. Talvez seja mal compreendido. Nunca lemos o manual, deve ter qualidades não exploradas, segredos mágicos, delicadezas como uma ponta especial que chupa o pó dos fios das luminárias ou um pincel que limpa o fundo das tomadas. Olha quanto encaixe que a gente não usa! Ela não quer saber. Não tem tempo a perder com falsas expectativas. Aumenta o volume da música e canta pedindo forças ao Senhor. Volto para o quarto, respiro fundo e anuncio aos gritos que vou recuperar o antigo que passei para a minha filha e que nunca ouviu malcriação. Sem desligar o aspirador nem abaixar o volume do rádio, ela concorda. Da próxima vez que der vontade de gastar dinheiro, a senhora me avisa.