Abro os olhos e dou com a Manu a pouca distancia da cadeira, magrela no biquíni, pezinhos enterrados na areia. O sol  e o calor queimando tudo. Duvida que eu jogue uma pedra em você? Aos dois ou três anos, já e sempre em atitude combativa, espera imóvel a resposta. Não me dei conta, no entanto, naquele momento tão estrangeiro, de Camus, de que se pudesse “destruir o equilíbrio do dia… naquela praia onde havia sido tão feliz” e arrisquei: Duvido.

A pedra escondida na mãozinha dela voou certeira, me cortou de leve a testa. Cobri o rosto mal acreditando e chorei de dor e de susto. Ela assustou-se também, mais com as minhas lágrimas do que com o sangue, sobretudo com o impacto da realidade, e seguiu calada atrás de mim para dentro da casa. Mais tarde, galo na testa, vendo-a brincar distraída com um gato, compreendi a sua necessidade de ser notada, magrela no biquíni, pezinhos enterrados na areia, por aquela mãe tomando sol de olhos fechados para ela. E me deu uma vontade cheia de culpa de colocar no colo e cobrir de beijos a criatura malcriada. A psiquiatria absolveu a sociedade moderna de todos os crimes.