Chegou arrastado pela mãe num impecável uniforme do Palmeiras, meião, chuteiras oficiais e tudo. Parou em frente ao espelho com cara de choro. A franja escorrida vinha reta, fazia uma curva acentuada à direita, subia apressada e então voltava e seguia seu curso normal. O desenho irregular do cabelo abria espaço para um corte horizontal na testa do menino, ainda inchado, fechado com pontos escuros. Veio a cabeleireira, uma japonesa elegante, séria, monossilábica e mandou tirar a camisa verde e branca. A mãe obedeceu, ele submetido, peito magrelo, ossinhos de fora, olhos colados no reflexo da sua tristeza. As lágrimas caindo. Fecharam o velcro do avental com desenho do Super Homem e foi ali que ele ganhou força. Tá me enforcando! Não consigo respirar! Quero ir embora! A mãe falou qualquer coisa num tom baixo e firme e reforçou a mensagem com um aperto na mão dele. A japonesa sacou a tesoura. Quando os primeiros fios voaram ele chorou alto e dolorido. As chuteiras chutando o ar. A boca aberta, ele babando, fazendo que ia vomitar. Tem cabelo na minha língua! A mãe veio com uma toalha secando a baba. Tem cabelo nos meus dedos, olha! Abria a mão e mostrava os dedinhos. A japonesa passou para a máquina e com um movimento seco empurrou a cabeça dele para frente. Começou a trabalhar a nuca. Eu não tou vendo nada! Quero ver! Tá doendo muito! A mãe endurecendo de constrangimento. Alguém chega com dois pirulitos vermelhos em formato de coração e três balas. Se você deixar ela terminar direitinho pode ficar com tudo. Engoliu o choro olhando para os doces no colo e conferiu, dois pirulitos e três balas. Limpou o cabelo que caía sobre eles. Levantaram a franja desfiada, passaram gel. Cabelo de jogador de futebol! a mãe salientou. Mas já não interessava. Abriu o pirulito e meteu na boca vitorioso.