De barco alcançamos uma praiazinha de água transparente e areia branca dessas típicas do litoral de Angra. Ao longe, bandeirolas coloridas, provavelmente esquecidas de uma festa junina, agitam-se ao vento e nos espia o bico da torre da igrejinha escondida atrás das árvores. Mergulho na água gelada e nado até a praia atraída pelo lugar. Sigo caminhando por uma propriedade protegida por um muro e portão alto de madeira fechado com cadeado. Atravesso um ancoradouro de embarcações pobres onde pescadores, como num domingo, vestem calça e camisa social, tomam cerveja e conversam debaixo das árvores. Estou na praia, de biquini portanto, mas a presença da igreja inibe esse despojamento. A areia termina onde começam as pedras que machucam os pés e me pergunto também se não deveria estar respeitosamente calçada. Há uma placa junto à escadaria de cimento caiado anunciando a presença da igreja de Santa Ana, construída em 1796 ali, na vila de Freguesia de Santana, em Ilha Grande, um importante centro industrial e agrígola do século XVII. Sou pega de surpresa pelo repicar do sino que bate entusiasticamente como convêm aos sinos em momento de celebração. Fogos de artifício explodem no céu azul assustando os cachorros que dormem no sol. Uma criança chora no colo da mãe. E uma procissão começa a sair do interior da igreja. Quero correr, mas é tarde demais. Como uma índia nua e assustada, desço a escada aos pulos e me escondo parcialmente do cortejo. Na frente vêm duas meninas paramentadas com longos aventais brancos carregando enormes cruzes de metal. Outros jovens, também de branco, acompanham com velas nas mãos. Quatro homens carregam a imagem de Santana num andor, uma jangada balançando no oceano, resultado da marcha solene no piso irregular. Algumas mulheres, aparentemente em suas melhores roupas, levam terços na mãos e lenços na cabeça. Há pelo menos um padre que segue no bloco da frente puxando a Ave Maria. Rezo com eles indagando se não seria pecado. A procissão passa sem prestar atenção à essa mulher molhada e suja de areia. Entram cantando e rezando por uma picada e somem na mata. É um momento de profunda conexão espiritual e o sentimento de pertencimento me enche de inveja. Volto para o barco com braçadas solitárias, as batidas do sino ecoando na minha cabeça, querendo estar com meu vestido estampado e sandálias no almoço dos devotos a base de peixe e pirão, querendo ter fé.