O árabe de olhos tristes e cílios longos procura as lâmpadas que vim buscar no armazém. É uma casa de ferragens daquelas que fazem meu coração bater mais forte, baldes de metal, vassouras de palha, cestas de todo tamanho. Memórias viajadas do Largo da Batata para o Leblon. Ainda de costas, mergulhado no emaranhado de produtos, começa a se lamentar: Temos que sair daqui, dessa cidade estressante, violenta e cara, acabou-se a ilusão. Vai tirando as lâmpadas da embalagem e testando uma a uma num bocal empoeirado. Ninguém mais tem ânimo para viver, ninguém mais quer casar, ter filhos. Saquei a carteira e argumentei com segurança: Ah, não é verdade, não. Eu mesma já me casei algumas vezes e vou seguir me casando até morrer. E tenho filhos, gostaria de ter mais. Ele coça a barba e propõe: então casa comigo, sou viúvo, tenho a loja. Dei uma olhada em volta, pensei nas incursões futuras. Olha, moço, já sou comprometida, mas vamos deixar a conversa em aberto. Outra hora a gente segue.