Na mesa ao lado, redonda como convém a um grupo ímpar de convivas, a algazarra ainda está no couvert com braços estendidos e encolhidos e estendidos novamente, a manteiga sumindo, o pão que me enche a boca de água, a água, quem diria, importada no país da água. Colorindo a toalha branca, os tons diferentes de vinho nas personalidades dos vinhos e de seus respectivos consumidores. Risadaria. O cardápio comentado.
Escrever sobre comida, do ponto de vista de uma pessoa que não faz caso de comer, é um ato de bravura. Já o seria quando culinária não era moda e as pessoas cozinhavam para alimentar a família e fazer o gosto desse e daquele de vez em quando. No momento em que tornou-se tema de saúde, gente “cool” e entretenimento midiático, é particularmente difícil se posicionar de forma não entusiástica diante da simples menção de um prato. Tem sempre algum incomodado psicologizando o assunto e trazendo à mesa a auto-privação do prazer e a impossibilidade de ser feliz sem a saciação desse desejo primário. Grande parte da população mundial passa fome e isso me dói diariamente. Agradeço o pedaço de pão que engulo. Aqui, não se trata de comer para matar a fome ou só para desocupar, como diria um tio de Guaxupé. Falo do ato de levar à boca gostosuras da alma de que fala com sabedoria a Nina Horta. A comida da mãe, a a afrodisíaca, a molecular, a do Bocuse, que Deus o tenha cozinhando no céu. Essa é que me falta. É dessa que passo fome. É essa que tenho dificuldade de apreciar como meus pares. É a minha grande diferença com a sociedade, exceto aqueles que têm distúrbios alimentares com os quais também não tenho afinidade em nenhum aspecto. Que não me ouça o querido Josimar Melo, um profissional dessa cultura, aqui e acolá. O ato de comer não ocupa lugar nenhum na minha vida. Tem pouco espaço no cotidiano, nas ocasiões especiais. E aí entra a aparente frieza, a antipatia, o defeito, o desapontamento que me afasta da maior parte das pessoas. Não há discurso que convença o outro de que esse momento confraternizante de estar à mesa me é mais confraternizante do que apetitoso. Que a conversa sem haver necessariamente comida envolvida me é tão saborosa quanto aquela que se cerca de iguarias. O vinho, o dry martini, a cerveja, a pinga, que tanto aprecio, podem e devem estar acompanhados de uma pouca coisa gostosa, um pedacinho disso ou daquilo. Não cabe todo mundo. Alguns têm que ficar de fora do meu estômago tímido. A cultura gastronômica com seus temperos, cheiros e sabores me encanta. Posso passar horas ao lado do fogão de lenha na fazenda ou nas cozinhas mais sofisticadas com seus Vikings à mostra ouvindo comentários sobre o que estamos preparando. Quem não come, não cozinha bem. Me desmente uma cozinheira peruana que conheci e que, talvez pelo gênio ruim de um marido pescador, fazia os peixes mais incríveis sem nunca sequer prová-los. A cozinha é o ambiente de que mais gosto numa casa. Das publicações de decoração, além de salas cobertas de estantes com livros, só o que me interessam são as cozinhas. Tenho recortes delas pregadas em frente ao computador como garantia de esperança, acolhimento e um respiro para a vida sem concretude da produção intelectual. A minha não tem espaço para mais nada tantas são as panelas penduradas, colheres de pau sobre a pia, facas estendidas sobre metais, cestas com cebola e alho e batata. Fora a coleção de livros de culinária. Os gastos e sujos da Julia Child do tempo de experimentação fracassada, pobres das crianças, na minúscula cozinha em Nova York. Os impecáveis da Nina Horta porque só os leio no sofá, divertindo-me com a literatura sofisticada de forno e fogão. O apenas para ver, com receitas espanholas e louças desenhadas do Picasso. O das carnes e pasqualinas uruguaias por razões do coração. Tantos outros. Que posso fazer se a profissional de feng-shui, alçada num momento em que tudo dava errado na vida, mexeu na casa inteira e só me perdoou a cozinha, identificando a excelente energia daquele ambiente? Caso-me com um homem que ama fazer, servir e comer. Uma contradição desmentida com amor todos os dias. Peço perdão àqueles que decepciono com minha convivência insípida. Perdão pela falha de caráter. Prometo tentar ser uma pessoa melhor. Senão por tudo que o prazer gastronômico propõe, pela cumplicidade no momento de alegria que a mesa garante.