Tive uma amiga árabe, fomos companheiras durante um período em Nova York quando nossos filhos estudavam numa escola distante e tomavam o Yellow Bus juntos. Assim as crianças o chamavam. Ônibus Amarelo é a perua escolar, a tradicional americana, que já passou por vários modelos ao longo dos anos, mas segue amarela. A cor foi escolhida porque chama mais atenção do que qualquer outra e é sobre ela que as letras pretas do School Bus são visualizadas com mais facilidade, especialmente nas primeiras horas do dia. Uma conferencia organizada em 1939 por Dr. Frank Cyr, um professor da Universidade de Columbia, reuniu durante uma semana especialistas em transporte público, fabricação e pintura de ônibus escolares dos 44 estados americanos. Ali, ficaram definidas as medidas seguras e a cor oficial do transporte de alunos no país. Pelo seu esforço, o Dr. Cyr foi agraciado com o título de Pai do Ônibus Escolar Amarelo.
Mas voltando à minha amiga árabe, a gente embarcava as crianças e seguíamos para uma caminhada atlética de cerca de uma hora à margem do rio Hudson. Ela queria perder peso e precisava. Caminhava maquiada, de saia, camisa e sapatinho de salto. Com muito esforço consegui convencê-la a deixar a bolsa, que ela levava no braço, em casa. Ia manquitolando, suando e gemendo e contando historias bonitas do Líbano que não combinavam em nada com a expressão de sofrimento que carregava durante o percurso. Os piqueniques familiares, as brincadeiras ingênuas com as amigas na praia. Nunca perdia a formalidade. Contou que durante os bombardeios que enfrentou quando morava lá, mantinha um procedimento padrão que os filhos conheciam e acompanhavam. Ao contrário da maior parte das pessoas que corriam às ruas à procura de abrigo como estivessem, pijama, roupão, embrulhados em toalhas, ela vestia-se, colocava os sapatos, sentava-se no sofá da sala e esperava que o barulho terminasse e o prédio parasse de tremer. Por sorte, não sofreu nenhum acidente maior. O apartamento chacoalhava, quebraram-se vasos, quadros, mas não foi destruído. Tinha sempre uma resposta pronta para qualquer situação desconfortável que eu estivesse vivendo. Uma delas era: Volte para casa, tome um banho, mude de roupa, recomece o dia. Esse vai ser melhor. Lembrei disso hoje quando, por distração, li as noticias no jornal e me deu vontade de sumir. Fui tomar banho de novo. É preciso ter fé.
Matthew Shirts, Roberto Gervitz e outras 85 pessoas
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