O homem chacoalhou o galho com força. A amoreira estava vermelhinha lá no alto. As frutas mais fáceis tinham sido apanhadas por outros frequentadores do parque ou derrubadas na chuva da noite passada. O homem não teve pena e fez o galho entregar tudo. Pensei que se quebraria, mas ele sabia mais. As frutas caíram na grama e fomos catando, alguns timidamente fazendo que era só acaso, outros, ele mesmo, enchendo as mãos e a boca com vontade. O garotinho achava graça quando conseguia pisar tirando sangue delas. Mais gente chegou. Um senhor dobrou-se lentamente num movimento de apanhar às avessas, alcançou o que pode no chão e colocou na pochete atada à cintura. O guarda olhou feio, pensei que daria fim à farra. Acendeu o cigarro e fumou. Escolhi uma gordinha, escura, com cara de gostosa. Tirei uma sujeirinha colada nela e meti na boca. Explodiu. Era uma geleia pronta. Foi o que ouvi das mulheres ao meu lado. Sorrimos em comunhão reconhecendo a delícia das amoras maduras e do momento. O agachar e levantar mil vezes atrás das melhores numa gincana infantil cheia de memórias pessoais. Senti o gosto disso também lembrando-me da calçada manchada da minha infância. De vez em quando o homem dava uns chacoalhões de novo sendo dono do que não era. O guarda fumava. A gente recolhia o que caía. Eu podia ter seguido a minha corrida e estou me cobrando até agora, mas a vida às vezes desencaminha a gente dos nossos planos. E só um tonto não obedece.