Quando éramos crianças, a gente se entupia, literalmente, de jabuticaba na fazenda em Guaxupé. Não havia convite melhor. Era escutar “tá dando jabuticaba” e o coração diparava. A molecada se pendurava nas árvores salpicadas de preto e ia apanhando, chupando e jogando algumas no cesto lá embaixo para mais tarde. A única preocupação era com os marimbondos que disputavam as frutas conosco e mais nada. Eu achava que, assim como qualquer outra árvore, jabuticabeira não tinha dono. Nunca poderia imaginar que aquele gigante da natureza, que tem vida própria, que dura muito mais do que a gente, que existe para dar sombra e frutos, pudesse pertencer a alguém. Mais tarde, a escola confirmou minha visão quando nos mostrou a Carta do Cacique Seattle, de 1854, uma resposta `a proposta do governo americano de comprar suas terras: “Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los?”
Hoje, escalando as jabuticabeiras da minha casa na praia, apostando corrida com os passarinhos para ver quem come mais rápido as bitelonas que ficam lá no alto, me entristece pensar que sou, efetivamente, dona delas e que nunca mais entenderei o mundo como então.