Domingo, diria o carioca, não é dia de correr na praia. Fui. Os caras da barraca de coco a caminho, era cedo para eles, ninguém é de ferro. Pendurei, então, minha roupa e as havaianas numa rede de vôlei enrolada antes do jogo. Senti a areia geladinha da manhã, o vento carregado de maresia, estiquei o olhar para o fundo do mar, pense numa pessoa de sorte, sou eu, isso aqui tudo é meu, só meu. Alonguei lembrando-me das lições tomadas emprestadas do Tony Ramos, que caminha ali diariamente com o seu personal trainer e, uai, que mal há em repetir de longe os movimentos que eles fazem, sem dar pinta, claro? Fui do Leblon ao Arpoador desacelerando só para atravessar o canal com água até a cintura, força contra a corrente e muita reza contra índice de coliforme fecal que eventualmente deságua ali. O turista não sente firmeza no meu desempenho e pede que tire uma foto dele com a namorada, o Dois Irmãos ao fundo, aproxima-se sorridente com o celular na mão, eu obedeço suando, sem ar, ele agradece como se não tivesse interrompido minha corrida. Mergulhei na água gelada no final da praia, altura da Bangu II, a barraca de um gente fina que também às vezes guarda minhas coisas, não como na Paraíso do Leblon, onde sou atendida sem comanda, uma distinção que pouca gente conquista e que, modéstia à parte, dona Marcia aqui conquistou em pouco tempo. Volto à rede de vôlei, agora desenrolada separando dois times de coroas sarados, veteranos de praia que se chamam por apelidos bizarros, se xingam de coisas que eu nem sabia que existiam e se beijam nas carecas suadas com uma intimidade que há muito suas mulheres não são beijadas. Tenho inveja dessa irmandade. Não encontro as minhas coisas. Achei que havia me enganado, que tinha pendurado noutro lugar, fiquei ali indo e vindo, não acreditando na má sorte. Perguntei. Tudo jurado de morte, ninguém viu, ninguém sabe. E então aceito a situação e entendo que preciso tomar uma atitude.  O sol agora está forte, a praia cheia, a areia fervendo. Vou aos pulinhos até o calçadão e então, caminho disfarçando, como se estar descalça e de biquíni molhado na rua fosse uma escolha, um estilo, um recado para a sociedade. Sete quarteirões até minha casa. Passo pelos cafés servindo brunch, sinto os olhares de estranhamento, os coxinhas do Leblon, ái, ainda se eu carregasse uma prancha, seria uma. Tento não pensar na calçada suja nem no fato de que eu sou uma mulher seminua atravessando a movimentada Ataulfo de Paiva. O asfalto pegando fogo. Não olho para o lado da farmácia que me vende tarja preta sem receita. Faço que não vejo os garçons do restaurante onde como toda semana. Não cumprimento os empacotadores do supermercado que eventualmente me ajudam com as compras. Sou uma mulher seminua, molhada, descabelada, descalça e muito séria. Através da grade do prédio, o porteiro me vê, abre o portão eletrônico, peço a cópia da chave do apartamento sem explicar, paulista otária, pé sujo, voltando da praia com ar de arrastão, sigo para o elevador. Não foi a coisa mais estranha que ele já viu entrar, mas sinto que ali perdi o seu respeito para sempre.