Sentiu o peito apertado quando o despertador, determinado, cumpriu com um toque vigoroso sua tarefa diária. A vida segue à nossa revelia. Não era raiva, ao contrário, só uma desvontade enorme, um não querer aquilo nela, a angústia presa na camisola amassada. Foi para o banheiro arrastando o chinelinho e de lá para a cozinha onde o sol forte se esparramava impiedoso, um soco quente na cara. Desorientada, atravessou novamente o corredor estreito, devagar, dedos tocando de leve na parede, hora de um lado, hora de outro. Tropeçante. Não pesava mais do que 50 quilos e se movimentava puxando um corpo pesado, indesejado. Vestiu uma roupa confortável, nada era confortável e saiu do apartamento sem saber que rosto tinha naquela manhã. O peito apertado, como se alguma coisa pudesse, fosse acontecer. Mexia no celular mecanicamente com o dedo, num toque nervoso e viciado. Entrou no carro e ainda na garagem avistou pelo retrovisor o vigia lá no fundo, sentado num banquinho plástico. Numa fração de segundos, fez a fotografia minuciosa dele. Camisa de manga curta azul clara, calça social preta, puro poliéster, chinelo. O fio branco do fone escorrendo do ouvido, olhar mergulhado na escuridão, uma pessoa escondida na umidade e na fumaça da garagem. No chão, viu o balde e o pano usados para lavar os carros. Além de um extra, a sensação de acelerar o relógio em dias longos naquela caverna. A solidão e a vida indigna daquele homem entraram no carro e se acomodaram no banco ao lado dela. Os pés no chinelo tocaram o chão e o olhar perdido na musica do celular encontrou o seu. A falta de perspectiva, a resignação ao exercício diário de sobreviver: comer, vestir-se, trabalhar, deitar-se, tomaram o volante e seguiram pela rua congestionada, o radio desligado, o peito apertado. Não tinha onde acomodar a dor comum, a dele agora justificando a dela. Zanzou durante horas, dirigindo-se a compromissos desimportantes e desistindo de cada um deles, o sapateiro, o supermercado, o mecanico. Na garagem, o vigia estica as pernas com preguiça, ela é amiga da minha mulher, pois é, pois é. Olha para o Honda do 121, sujo, e se lembra de que o proprietário prometeu umas roupas semi-novas, coisa boa do coroa elegante. Faz as contas já sabendo que vai ter que adiar novamente o acerto com o socio do cunhado de quem tomou uma quantia emprestada para bater a laje, aquele fdp. Pensa com gosto na laje. Prepara, que agora, é a hora, do show das poderosas, que descem e rebolam. Na salinha sem janela, esquenta a marmita feita pela esposa ainda de madrugada. Com pouco, entra a ligação da morena que conheceu outro dia, oi princesa, como vai, sorri cutucando a comida. Sim, saio às 3h, fala de boca cheia. A vida nunca parando. Folheia a VIP antiga e pensa na bunda da morena. Sem pressa, alcança a toalha para lavar-se na torneira de serviço e quem sabe pegar o Honda. Não vê quando a mulher entra de volta na garagem, deixa o carro desalinhado na vaga e sobe. Ela vem carregando o sofrimento dos desvalidos, dos solitários, dos abandonados, dos vigias nas garagens escuras. Ela precisa chegar rapido em casa, fugir da luz, dos sons, do controle das circunstancias. Entra, tranca a porta, pendura a bolsa com o dinheiro que tirou no caixa eletronico, atravessa a sala e joga-se pela janela. Um grupo se aproxima do corpo, o porteiro corre, gritaria. A água com sabão escorre pelo capô e ele esfrega de leve o pano para não riscar. Capricha para justificar as roupas do coroa elegante, quem sabe hoje mesmo visto uma camisa dele, vodka ou água de côco pra mim tanto faz, gosto quando fica louca, e cada vez eu quero mais, cada vez eu quero mais.