“Eu poderia matar a mulher que inventou esse negócio da igualdade dos sexos!”, bradou a pedicure agitando o alicate no ar. Nem cogitei argumentar que não foi bem assim que começou a revolução feminina nos idos dos anos 1960.
Imobilizada em posição quase ginecológica diante da profissional de grande porte e personalidade idem, concordei com o discurso antifeminista dela: “Ficou difícil prá gente, não é?”
Ela seguiu sem perder o raciocínio: “Que vantagem Maria leva em trabalhar feito louca na rua, voltar pra casa e enfrentar sozinha a cozinha, a roupa e os filhos como quem esteve ali `a toa o dia inteiro?”
Preferi não dar corda para evitar que ela perdesse o foco e me mutilasse um dedo. Contemporizei: “Com o tempo os homens vão entender a nossa situação e colaborar mais. Veja os das gerações mais novas como já estão mais solidários”.
Mas, pelo visto, nada mudaria o destino daquela conversa: “Meu marido queima uma frigideira por semana no único dia em que ele tem que fritar os bifes porque eu chego tarde. Eu pego a frigideira e nem me dou ao trabalho de colocar de molho, jogo direto no lixo e mando ele comprar uma nova. Você acha que eu vou cozinhar em panela queimada?”, perguntou em voz alta.
“Aí complica”, falei, solidária, sem tirar os olhos do pé que ela manipulava com familiaridade. Pensei na comida dela e, para falar a verdade, fiquei meio enojada imaginando aquelas mesmas mãos pegando na massa de pastel.
“Eu trabalho para pagar as minhas coisas. Detesto abrir a gaveta e só ver calcinha velha. Não gosto de dar satisfação dos meus gastos. Já viu aquelas mulheres que fazem mercado com os maridos e tem que justificar cada produto que vai pôr no carrinho? Eu, hein?” Senti a pressão da lixa no calcanhar.
“Homem é tudo folgado. Meu irmão mesmo, se a mulher tá empregada, ele logo pede demissão e fica em casa. Então ela não trabalha mais. E exige tudo do bom e do melhor. Até da pílula [anticoncepcional] ele é quem cuida porque ela esquece. Nisso eu invejo ela.”
“A gente é orgulhosa e sai perdendo. O melhor é ser dondoca…”, não terminei a frase e ela emendou: “Meu marido é pintor profissional. Pois a panela de pressão estourou outro dia e deixou as paredes e o teto manchados de feijão. Pergunta se ele pintou? Tô eu lá esfregando tudo pra ver se sai. Eu queria era ver os pedacinhos do “célebro” dele agarrados no teto e eu limpando com Veja!” E caiu na risada.
Gargalhei junto, nervosa, sentindo o palito de madeira afundar nos cantos da unha.
“Tudo culpa daquela filha da mãe que inventou a igualdade. Queria matar aquela mulher. Você sabe se ela ainda é viva?”