Era feito de papel. Fibra moída, vontade prensada. A mulher pegava aquela maleabilidade e fazia dobradura dele. Depois deixava enfeitando a casa. Mantinha sob controle tudo o que respirava ali. E o que não respirava, não questionava, não resistia, ela dobrava. A vida cumpria-se burocraticamente a cada virada do mês. Tarefas, refeições, compromissos, planos, planilhas. A garantia da sanidade. A fotografia na parede. Ele calado, submetido, dobrado num origami milenar. Um dia, arriscou: Não sei se te amo mais. Claro que ama, ela encerrou. Agora me ajuda aqui a subir o zíper e vai trabalhar. O amor faz da gente gato e sapato.