Mendonça, o porteiro, tem nome e personalidade emprestados de Nelson Rodrigues. Simpático, ar sofrido de homem inutilmente honesto, passa o dia despachando da mesinha, pernas jogadas para a frente, dialogando com funcionários, entregadores, visitantes e o síndico, um senhor já bem idoso e igualmente falante, “a quem só levo péssimas notícias, fazer o que?”, lamenta valorizando a posição. Num arrastado sotaque carioca, estende-se  em conversas longuíssimas, recheadas de detalhes e descrições minuciosas, inclusive pelo interfone quando acionado por alguma solicitação banal de um morador. São justificativas que acompanham o que não será feito e às vezes até o que é feito e que de tão simples, a seu ver, pede uma explicação. 

O zumbido do ventilador confunde-se com o do radio ligado num volume inaudível, exceto aos domingos durante o futebol quando, coincidentemente, cai o movimento na portaria e ele se acompanha do jogo. À noitinha, na virada do turno, sai numa estica de fazer inveja, roupa bem passada, sapato bacana, cabelo cuidadosamente levado para trás no gel e tudo. A diarista da minha casa, colega de quadra na Mangueira de uma prima dele, confidenciou-me exaltada que quem paga as contas na casa do Mendonça é a mulher: “Uma vergonha. Quem sustenta homem é cadeia! Eu, hein?” Dizem que o salário fica no balcão do boteco em frente ao ponto de ônibus. Já vi, mas prefiro não me manifestar para não perder os privilégios. O Mendonça me trata feito rainha.
Há 26 anos cumpre expediente no edifício, fato relativamente comum entre os cariocas dessa categoria, uma espécie de funcionário público com emprego vitalício, desde que mantenha a rotina dentro dos conformes. O Rio aprecia essa herança da Corte e, ignorando as curvas econômicas, mantem diversos prestadores de serviço prestando serviços claramente delegados a eles por pura preguiça ou vício cultural mesmo. Assim, dezenas de homens circulam por este edifício, vinculados formalmente a ele ou não, numa variedade de uniformes e títulos e negociações que me confunde. Nunca sei se devo dar apenas uma gorjeta para o sujeito que aparece para resolver o problema da luz da sala ou se é um eletricista terceirizado a quem devo pagar pela visita. Muitas vezes, o Mendonça desloca um profissional de uma obra num dos apartamentos ou infiltra outro. Escala de acordo com a habilidade e disponibilidade do momento.”Está subindo aquele que vai solucionar-lhe o problema”, anuncia o Mendonça do seu posto. E é tudo.
Quando cheguei no Rio, precisei de ajuda com o gás do fogão e pedi ao Mendonça que me indicasse alguém. Veio o Fernando. O coelho comeu o fio da televisão, de novo o Fernando. O varal arrebentou, surge o Fernando. O tanque entupiu, tarefa para o Fernando.”Mas Mendonça, tudo aqui quem resolve é o Fernando?”, inquiri. “Veja,” e engatou o linguajar elaborado que os cariocas adotam quando querem atribuir seriedade a um ponto claramente duvidoso, “ele é verdadeiramente um encanador, mas não pode se deter apenas nessa especialidade.”