Veio de longe, arrastando o passado em malas e caixas. Cinquenta anos. Sentado no apartamento vazio, foi abrindo uma a uma, deixando escapar a história em capítulos dobrados, amassados e rearranjados em estantes, cabides e gavetas. Animou-se. Parte já não servia no homem magro de agora, outro tanto ninguém vestiria pela extravagancia da moda ultrapassada. Havia ainda o que ficou misturado em tanques e lavadoras e estendido lado a lado nos varais da casa ensolarada. Uma saia, duas camisetas, a bermuda surrada, um moletom comprado em Miami. Separou. Em seguida, mergulhou as mãos nas profundezas de uma caixa transbordada de fotografias de uma época em que as fotografias ocupavam um espaço físico. Folheou pequenos álbuns e reencontrou a vida metida em folhas plásticas apertadas. Tomou tempo para olhar. Frente e verso. Os álbuns de capa pesada anotavam data e local. Esta, a vida organizada em viagens e comemorações. Doces registros familiares. Suspirou e devolveu tudo sem vontade de continuar a se indagar o que guardar e o que queria esquecer. Puxou uma bolsa da Nike, abriu o zíper adivinhando o conteúdo. Bonés, inúmeras carteirinhas plásticas do despachante com documentos dos carros que passaram por ali, a carteira profissional, passaportes antigos, sacos de moedas colecionadas pelo mundo. E, soltas, descuidadas, fotos de encontros apaixonados, rápidos e intensos com mulheres com metade da sua idade no rastro da impossibilidade conjugal. Gestos, olhares carregados de tensão sexual. Paisagens afrodisíacas. Sem saber o destino daquelas experiências, manteve na esbórnia da sacola junto com os óleos de massagem e as velas. Procurou e encontrou a edição moderna do Kama Sutra para Ela e Ele. A obviedade de um homem. Sentiu-se quase feliz. O espírito leve, a garantia de que algumas coisas não obedecem a ordem moral imposta e punitiva. O castigo não vinha dali.
Caixas com fios que não ligavam mais nada a nada e que, no entanto, pareciam indispensáveis. Aí, sim, a ameaça. Centenas de Cd’s, um peso desnecessário numa mala sem rodinhas. Embalados em plástico bolha, os quadros saíram de paredes sólidas, que se mantiveram de pé quando tudo caiu. Trouxe todos considerando a legitimidade da origem. A sua relação estreita com a arte. Mas foi só. O resto era recomprável quando os imóveis fossem vendidos e divididos. Observou com cumplicidade os pequenos tapetes enrolados, coletados nas idas ao Oriente durante a produção do documentário sobre a Al Jazira. Onde estaria a cópia? Ajoelhado, divertiu-se empilhando os livros em arriscadas esculturas. Doeram-lhe as costas. Levantou-se e recostou-se na poltrona apoiando os braços nos braços de couro gastos pelos braços de seu pai. Veio-lhe o proibido. Saltou. Num gesto libertário, foi até a caixa de ferramentas e, munido de um estilete, converteu vários jeans novos e caros em bermudas. Sorriu. Das vantagens de ser um homem solteiro!