Em depressão de final de ano, talvez porque mais uma vez a dieta não funcionou e ela ainda é a obesa da casa, a gata Preta tentou o suicídio engulindo uma agulha de costura com linha, nózinho na ponta e tudo. Não deixou bilhete, não nos demos conta. Espumava e guinchava como uma louca, enfiada em cavernas inacessíveis como a sapateira ou as caixas da dispensa. Não conseguíamos agarra-la. Veio a equipe de resgate veterinária com uniforme de acidente nuclear e debaixo dos gritos da gata e lágrimas das meninas, diagnosticou-se uma infecção na garganta. O veterinário aplicou uma injeção e receitou medicamentos que ela tomou a semana toda e continuou sem comer, sem beber ( agora, sim, perdendo algum peso) espumando, babando, chorando.
A Milene, que trabalha em casa, já não podia mais com aquele sofrimento e, numa manobra genial, enfiou a mão na garganta da gata retirando a agulha já enferrujada que, sabe Deus como, manteve-se esse tempo todo imóvel lá dentro. Linha e nózinho na ponta e tudo.
Com a naturalidade com que faz tortas maravilhosas, passa roupa com requinte, mantem a casa limpa e organizada, ela trouxe a gata de volta à vida: “Não gosto de criação, mas não posso ver o bicho maltratado”.