Pequenininha, de um tamanho que a permitia atravessar de pé, de um lado para o outro, a mesa da cozinha, e muito pretinha, ela acreditava que, de alguma forma, pertencia à família da Meire, que trabalhava conosco. E pertencia. A Meire era linda, negra, olhos puxados, alta, corpo perfeito, e tinha quatro filhos cada um mais bonito que o outro. Era vaidosa, estava sempre colorida e enfeitada. Além disso, tinha um amor declarado por dançar e, podendo, dormir até tarde, uma coisa decorrendo da outra, duas atividades que a Laura sempre respeitou. Grudada nela, a Laura cresceu ouvindo a radio Nativa, pedindo para passear nas Super Casas Bahia, louca para esfregar o chão com os pés rebolando sobre o pano molhado, inventando comida fora de hora e sendo atendida com prazer compartilhado pela Meire. Porque era neguinha, as irmãs deram a ela o apelido de Sierva Maria (de Todos los Angeles), personagem de Garcia Marquez que era fruto de uma relação extra-conjugal da senhora da casa grande com um escravo e que, por isso, foi obrigada a viver na senzala onde adquiriu hábitos afro-descendentes. A Laura sempre amou muito a Meire e foi amada por ela. Dessas coisas que crescem feito mato, com uma força e uma naturalidade admiráveis. Anos mais tarde, quando alguém, por acaso, deu a ela a confusa informação de que não pertencia de fato e de sangue à família da Meire, foi um choque. Ficou de herança da passagem da Meire pela nossa história, a sua insistente vontade de ser feliz. Apesar de tudo o que representa uma vida de quem luta pela sobrevivência no Brasil. E eu agradeço à Meire todos os dias essa herança encantada, a alegria contagiante da Laurinha. O pingo preto, meu ponto final.
Feliz aniversário, meu amor!