Quebrou o nariz do marido, 16 anos mais novo, e não fez curativo nem quando se arrependeu mais tarde. Sabia que para ser respeitada era preciso se manter firme ainda que o coração amolecesse. O soco estava armado desde o dia em que ela desconfiou que arrancar os pelos do peito e das costas com cera quente era sacrifício demais para um homem querendo agradar a esposa. Na época, era depiladora num salão e a pedido dele, fez o serviço em casa, sob o olhar atento do filho pequeno entre encantada com o gesto galante dele e cismada de que os recentes atrasos não eram resultado de hora extra coisa nenhuma. O soco direto é dado com a mão dianteira. É um golpe muito importante pois é o de mais longo alcance. Tem diversas serventias como medir a distância do oponente, afastá-lo, dar o primeiro golpe de uma série de ataques e testar a defesa do adversário. E´um ótimo golpe pois requer o mínino deslocamento. Quando ele chegou em casa`as 11 da noite com cheiro de sabonete, ela partiu para cima usando instintivamente o que tinha aprendido no treinamento de luta. Acumulava agora o emprego de segurança num baile funk nos finais de semana para completar o dinheiro do mês. Revistava as bolsas das mulheres na entrada, dava incertas no banheiro feminino para garantir que não havia venda de drogas, farejava confusão na pista e avisava os colegas. Com os sentidos aguçados pela função, sentiu logo a mentirada do marido e mandou um direto na cara dele. Tinha experiência na matéria. Como lembrou a mãe no dia seguinte quando foi pedir um pouco de gelo para “desinchar o desgraçado”: “Você não tem moral para bater em homem nenhum. Pelo tanto que já aprontou, bem podia ser um deles”. No casamento anterior, era ela quem dava suas voltas. Cansada da rotina matrimonial, arrumou um namorado do outro lado da cidade e duas ou três vezes por semana, fazia uma baldeação romantica antes de voltar para o lar e encarar o fogão. Chegava em casa exausta, mas feliz. Um dia o marido desconfiou, plantou-se na porta do barraco alheio e, quando saíram, jurou matar os dois. Ela chorou, mostrou arrependimento e para acalmar a fera, tatuou o nome dele, Valdosul (irmão de Valdoeste), de ponta a ponta logo acima do bumbum . “Fiz de propósito para aniquilar qualquer má intenção. Inclusive as minhas”. Como pau que nasce torto, não conseguiu endireitar e arrumou outro namorado ainda mais longe de casa. Para não desrespeitar o marido e, sobretudo, não desgostar o outro, usava um emplastro Sabiá sobre a tatuagem com o pretexto de que tinha dor crônica na região lombar, também chamada de lombaldia. Trabalhava como recepcionista numa clínica de RPG naquela época e a idéia lhe veio com muita naturalidade. Dessa forma, nos rápidos momentos da paixão tórrida vividos com o namorado entre o trem , o metro e os ônibus, o adesivo escondia o Valdosul e a monotonia do casamento. Mas a estratégia durou apenas até o verão que, naquele ano, veio cheio de personalidade e com temperaturas altas o suficiente para derreter qualquer emplastro colado num corpo suado e em movimento. Cansada de tanto esforço, achou mais prático separar-se de uma vez e arrumar um marido mais jovem, com vigor suficiente para que ela voltasse para casa sem baldeação. O tal que terminou depilado, frente e verso, e com o nariz quebrado. Agora, ela planejava pegar a vaga anunciada no açougue da rua de cima.