sintonia fina

 

Encontrei Santiago Pinha em San Antonio, leste do Uruguai, na pradaria sem começo nem fim ao longo da praia de mar aberto. Era um galho pequeno, magro e seco com corpo e cabeça de menino, caído de alguma árvore. Perfume de macela e eucalipto, pinheiros da altura de edifícios. Vento, vento, vento. Santiago estava de bruços no solo arenoso, ensaiando uma cambalhota, talvez. O bracinho mais curto apoiando o mais longo naquela geometria inexata dele. Achei graça, me compadeci da sua condição irregular, da feiúra, do olhar baixo, da timidez do adolescente gaúcho. Peguei. De pé, fincado na areia, ele era exatamente quem eu imaginava. Então, claro, carreguei-o comigo para o Brasil na mala cuidando para que não se machucasse, com medo de que a Polícia Federal mal interpretasse minha intenção materna e desse cabo dele confundindo com “objetos pontiagudos e cortantes, ferramentas como serra, furadeira ou lança, martelos, alicates, objetos esportivos como remo, tacos de beisebol ou golfe e outros que interfiram nos equipamentos das aeronaves.” Queria contar a sua história, ainda penso nisso, a saga de Santiago Pinha, o menino dos pampas, tão feio que vivia só entre os carneiros que pastoreava e mais tarde virou herói nacional fazendo o gol da vitória do Uruguai contra o Brasil numa final de Copa do Mundo. A ver.

Na volta, meu pai espiando as fotos no celular, arrasta o dedo ansioso e corre as imagens sem intervalo, filhas, irmãos, primos, as férias anotadas. De repente, congela na figura de Santiago Pinha. Fica alguns segundos examinando o galhinho com ar de gente e pede com naturalidade:

– Me passa essa foto?

– Por que papai?

– Gostei dele.