Uma mulher pode ter muitos amores. E pode até se casar com um ou mais deles. Casar-se com um amor não invalida os outros, que permanecem boiando de longe na mesma água. Apenas no papel, reconhecido pelo juiz, é que só vale um casamento, o que, cá entre nós, nunca valeu de verdade. Certa vez, registrando algum documento no cartório, fui flagrada gaguejando meu estado civil. Eu não me sentia casada apenas com quem estava casada. Havia espaço no meu coração para outros eventuais amores. De certa forma, naquele momento, eu era solteira. Foi aí que me faltou firmeza. Tentei descrever esse estado de espírito, tão distante do civil, com a poesia e a profundidade que ele pedia. Não alcançou: Minha senhora, bigamia é crime, sabia? Preferi não argumentar com o funcionário do cartório que, além de tudo, me pareceu um marido burocrático, daqueles que só reconhecem a sua firma quando fazem sexo com a esposa. Esposa não é mulher. O manual interno da Folha de São Paulo, há muitos anos, sugeria que os jornalistas usassem o termo esposa quando se referissem a uma mulher casada com alguém citado na matéria, a esposa de x ou a ex-esposa de y. Como se a breguice se estendesse de estar noiva até ser esposa. Desposar é antônimo de acasalar. Bom mesmo é quando numa disputa de mulheres, uma delas adota “o meu homem.” Muito mais quente do que “o meu marido”, que fica morno no instante em que se pronuncia o status legalizado. Na cena de um filme, a mulher exigiu sair ao lado do marido na foto da carteira de identidade dele. Revelava, por trás da piada, a necessidade inevitável de ser dono da pessoa que se ama. É legítimo querer documentar para sempre a sensação momentânea de propriedade que a paixão impõe. Eu preferiria a documentação assinada com nossos nomes pela fumaça de um avião sobrevoando a praia diante dos olhos de centenas de testemunhas. Vai com o vento, mas é muito romântico e honesto. As testemunhas da paixão alheia deveriam ser como os banhistas observando no céu o amor entre duas pessoas. Como nos casamentos em Las Vegas que vemos nos filmes. As testemunhas lá, como aqui, são desimportantes. Apenas emprestam as suas presenças para aquele arroubo do coração. Testemunha de um casamento meu, a amiga seguiu conosco numa longa viagem de lua-de-mel de carro e quase foi deixada na estrada, arrependidos que estávamos de tê-la convidado. Foi na euforia da bebida, ela estava linda na cerimonia, tinha uma bolsa vermelha que me encantou e um decote profundo que encantou meu marido. Nunca mais a vimos e o casamento eventualmente acabou.

Na poltrona da frente do avião em que me encontro, o rapaz descansa a cabeça no ombro do outro e deixa à mostra a marca branca da aliança no dedo anular. Me lembrei de quando os homens escondiam a aliança para enganar mulheres solteiras e a gente fingia que não percebia para não perder a noite também. Aqui, acho mais fácil que seja a marca assumida do fim de uma história recente. Uma declaração de amor escancarada. Ou seria o proibido que excita? Não importa. Do meu privilegiado ponto de vista, observando os cocurutos colados, está claro que nesse momento, eles estão casados enquanto dure.